A escrita como uma peculiar<br> e interventiva «experiência do humano»
Álvaro Cunhal é, certamente, uma das personalidades marcantes do século XX português e europeu. Político lúcido, combativo e corajoso, resistente antifascista de primeira linha, preso nas masmorras do fascismo durante 12 anos, torturado, perseguido, como raros portugueses o foram, por Oliveira Salazar, essa figura sinistra que deu voz, instrumentos e suporte ideológico ao período mais negro da história portuguesa de grande parte do século XX.
Álvaro Cunhal, homem de todos os combates, forjado na luta e no amor pelo Povo
Teórico dos mais lúcidos, dirigente comunista respeitado e admirado pelos seus pares a nível planetário, Álvaro Cunhal, mesmo no exílio, nunca deixou de erguer a sua voz em defesa dos seus ideais, lutando pela libertação, pelos direitos e pela dignidade dos trabalhadores e do Povo Português. E foi, mesmo nas duras circunstâncias do exílio, paralelamente, um homem atento às coisas da Cultura, um autor maior do nosso neo-realismo, tanto no campo ficcional como na abordagem teórica, tarefa que exerceu com aguda inteligência e denodo intelectual nos jornais Sol e O Diabo (estes, dois títulos da resistência antifascista, não os pasquins que hoje, ostentando, contranatura, os seus títulos, lhes maculam a memória) e nesse livro incontornável de assertividade e sentidos crítico, estético e programático que é «A Arte, o Artista e a Sociedade». E, concomitantemente, expressando no desenho, com igual sensibilidade, rigor, imaginação e argúcia, em fulgurante traço pessoalíssimo, o seu amor ao Povo, ao Trabalho e à Dignidade da nossa condição de homens e mulheres livres. O seu traço redondo, circular e ágil, serviu para denunciar, de forma impressiva e singular, as duras condições de vida e de trabalho de quantos, de sol a sol, granjeavam a terra e dela tiravam magro sustento, ou os que nas oficinas e fábricas retinham uma soldada de miséria e humilhação.
Aproveitando um texto publicado no meu livro «Desconstrutor de Neblinas», gostaria de aqui evocar, de forma sucinta, a obra ficcional de Álvaro Cunhal, a qual, publicada sob o pseudónimo Manuel Tiago, é hoje considerada pela crítica um dos marcos do nosso neo-realismo, e do realismo social tout court; uma literatura fortemente influenciada pelo desejo de, contando, nos contar; feita da urgência de dizer, (Cunhal é um autor tardio, embora as suas duas obras principais «Até Amanhã, Camaradas» e «Cinco Dias, Cinco Noites», devam ter sido escritas em finais dos anos 1950) de expressar a verdade e as derivas de um tempo de lacraus, da gesta de um Povo resistente e audaz obra que, como a definiu Urbano Tavares Rodrigues, se transformou numa peculiar, profunda e rara «experiência do humano».
Manuel Tiago/Álvaro Cunhal parte da memória de uma vida de excepção, vivida no gume da navalha, mas plena, para nos contar os medos, as angústias e a luta corajosa de um punhado de homens e mulheres que souberam, nas duras condições da luta clandestina e das prisões, resistir aos algozes e resgatar, em Abril de 1974, enquanto povo livre, a voz, a cidadania e a plenitude dos direitos cívicos e sociais que 48 anos de fascismo haviam sonegado.
Alheia aos bastidores das tricas literárias caseiras, a obra de Manuel Tiago revela-se logo após a Revolução, com «Até Amanhã, Camaradas» (romance que, ombreando com «Subterrâneos da Liberdade» contém na incursão narrativa, em relação ao texto de Jorge Amado, a verosimilhança do factual e do vivido) e determina-se, desde esse momento, território pessoalíssimo e singular no panorama literário português dos anos 1970, revelando-se a par de algumas das vozes centrais de uma, hipotética, 3ª. geração neo-realista que as lutas académicas dos anos 1960 e a experiência crítica na guerra colonial haviam revelado: Álvaro Guerra, Modesto Navarro, Fernando Assis Pacheco, José Martins Garcia, José Manuel Mendes, João de Melo, etc.; mas, igualmente, próxima, na elaboração dos sintagmas romanescos, nos modos de efabular, na sintaxe, e na denúncia da opressão fascista, de algumas vozes tutelares da prosa e da poesia, vindas da resistência, e seus companheiros próximos da geração revelada durante e no pós II Guerra: Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, José Gomes Ferreira, Manuel do Nascimento, Papiniano Carlos, Manuel da Fonseca, Armindo Rodrigues, Carlos de Oliveira, Luís Veiga Leitão, Daniel Filipe. A estes poderemos juntar, embora tenham encetado caminhos estéticos diversos, mas cuja obra é, também ela, socialmente empenhada, Urbano Tavares Rodrigues, autor já então reconhecido e com vasta obra publicada aquando da Revolução, e José Saramago, com uma obra a despontar vigorosa e original, com as crónicas (do Diário de Lisboa, de boa memória) e a poesia publicadas, e trazendo à ilharga «A Noite» e o «Manual de Pintura e Caligrafia».
Manuel Tiago surge, neste contexto, como uma voz descomplexada, com uma escrita clara e despojada, de cariz vincadamente anti-burguês, política e partidariamente comprometida, afirmando-se, no desassombro do combate social, livre e liberta dos constrangimentos que a censura e a constante vigilância da PIDE haviam imposto aos autores do neo-realismo nos anos 1940/50, embora em obras como «Cinco Dias, Cinco Noites», ainda permaneçam traços de um código de referências que apelava à cumplicidade do leitor. Ou seja, o leitor deveria estar apetrechado para a decifração desses códigos de alusões, do «não dito» para que a clareza do texto, através das referências inscritas num «sub-texto» plenamente se cumprissem; técnica então muito usada por alguns jornalistas e, até, em certos textos do teatro de revista.
Temos, desse modo, um discurso que não escamoteia o real, que não esconde as suas origens doutrinárias e de classe, que se assume como um contributo ideológico no combate ao fascismo (e como essa memória hoje, nestes dias amargos, nos é de novo tão urgente e necessária), em oposição frontal ao capitalismo rapace que o salazarismo patrocinou e que hoje se instala de novo arrogante e sem máscara, produto das debilidades e desvios do processo democrático que deixaram que o País chegasse ao que chegou, a esta recorrente apagada e vil tristeza, tomado por dentro pelos arautos mais retrógrados do neoliberalismo herdado da escola de Chicago, que está, já sem rebuços e de forma tentacular, dominando a Europa.
Um testemunho atento ao seu tempo
A escrita de Manuel Tiago, caso raro na nossa literatura, sabe quem são destinatários, conhece bem os seus interlocutores, sabe que quem o lê estará próximo das suas convicções e por essa determinante da construção literária (a ligação autor/receptor) tenderá a estabelecer perduráveis e impressivos traços conceptuais e discursivos que ampliam o efeito do narrado. Assim, mais do que estabelecer uma cumplicidade conformada, os textos de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal apelam à acção, à permanente vigilância dialéctica para que o fascismo, nos seus contornos mais sórdidos e cruéis, se não repita. A escrita de Manuel Tiago é, na sua verdade sem rasuras, um testemunho atento ao seu tempo, a urdir-se com os linimentos fecundos da memória, da experiência do vivido e da luta; uma escrita a dar testemunho de um tempo histórico preciso, mas a invadir, através da inventiva e da arte literárias, este nosso tempo, e a contribuir para o descodificar de alguns enigmas actuais que nos sobressaltam – e dos fantasmas que, de novo, nos parecem querer de regresso aos tempos de trevas e silêncio que os seus textos, vigorosa, dialecticamente, combateram e denunciaram.
Álvaro Cunhal e a sua imperecível e fecunda obra, política e artística, a sua herança, é hoje, nos dias regressivos que vivemos, tão necessária como o foi nos dias da resistência ao fascismo, ou como o terá sido nos dias breves da alegria e da nossa esperança colectiva.
Para Manuel Tiago/Álvaro Cunhal, as questões da dignidade, da política e da justiça, não são descartáveis da Cultura – muito menos da Literatura. Num romance deve caber tudo, dizia-nos Rolland Barthe.
A polémica ideológica e estética que, nos anos 1940, opôs aqueles que defendiam uma literatura que expressasse o vivo pulsar de uma sociedade e a sua passagem para um devir mais progressivo e justo, a quantos pugnavam por uma literatura subjectivista e alheada do real quotidiano (para usar um título feliz de José Gomes Ferreira), não se esbateu com o final do século XX e, bem pelo contrário, é ainda hoje – sobretudo neste frágil território, a derruir, da ficção, dado que foi assaltado pelos mais abjectos e insanos produtos ditos literários – mais premente e a convocar-nos reflexão e intervenção urgentes.
Nestes dias de usura generalizada que nos querem impor como verdade absoluta e sem alternativa, a questão já não se porá tanto na definição e projecto da arte literária – se uma literatura que assume interpretar criticamente as derivas do tempo histórico sobre o qual se afirma é um mero produto de acção política, ou dela derivativo (e aqui chegados, caberia afirmar, como de resto o demonstrou lúcida e definitivamente Alexandre Pinheiro Torres, defendendo que «toda a literatura é política» mesmo a que, sorrateiramente, a fazer-se, à sorrelfa, de ingénua, nos tentam impingir como inócua, de pura e sacrossanta evasão), e a outra que ouve, arrebatada, chilrear de pássaros nos umbrais das musas, se olha ao espelho dos delírios pasmados, com as palavras debruçadas sobre abismos de abstracções elementares, aguardando a pena salvadora de um crítico amigo nas páginas de um jornal dito de referência que lhe possa polir o ego e referendar a falta de ideias ou descarado plágio; ou a que se passeia, meteórica e convencida, pelas camas de cetim do jet set indígena, incontinente de língua e aos baldões na gramática, numa promiscuidade formal desbragada e espertota, que vive de se exibir nos ecrãs televisivos e nas páginas das revistas cor-de-rosa. Perguntamo-nos: uma literatura assim, serve o homem, projecta para o futuro a memória mais funda deste nosso tempo, ou não passa de mero produto de supermercado para cumprir a função, como outrora o ópio, da ilusão dos paraísos? Não sejamos ingénuos.
O conceito de arte pela arte, que os presencistas acenavam como arma de combate à literatura comprometida e ao neo-realismo, e que Alain Robbe Grillet actualizou opondo a sua teoria do regresso romântico da inconsciência do acto criador, como refere Werner Krauss, ao engagement satriano, não passou de um sofisma para tentar impedir que a literatura virada para os problemas reais e para as lutas do povo, efectivamente se afirmasse e se transformasse em esteiro de acção consciente e crítica, da luta política e ideológica mais vasta e transformadora do real. Julgo que o enquadramento teórico do novo romance francês se mantém ainda hoje, adaptado contudo, nas suas configurações menos extremadas, e às premissas da nossa realidade, por grandes autores da nossa ficção mas não deixou de servir para caucionar o aparecimento de sub-produtos literários que a pós-modernidade e o desvario consumista dos anos 1990 contribuíram para legitimar.
A decifração destes códigos, os que nos conduzem às perplexidades hodiernas e às extensas interrogações sobre a realidade destes nossos dias, está magistralmente expressa na obra-prima que é a novela «Cinco Dias, Cinco Noites». Este texto, mais do que aquilo que omite (ou transfigura) é o que revela: o mundo arcaico da nossa ruralidade, dessa ruralidade que o fascismo mitificou; o silêncio compungido dos que vivem cercados pelo medo e pela ignorância e têm existências minguadas, aos rés da sobrevivência. Um mundo triste e violento (até a serra é «hostil» e «fria», «pedregosa e nua», diz-nos o autor) quase desumano. Mundo em que as mulheres, «mesmo nascidas para serem amadas», se vendem e em que os homens (Lambaça) jogam, sem consciência de classe, por mero instinto ou manha ancestrais, o jogo perigoso de contornar a permanente vigilância dos esbirros. Lambaça, beberrão, machista, marginal, cadastrado, faquista e desordeiro (e como Manuel Tiago consegue, de forma ímpar e sem paternalismos, penetrar esse mundo de marginais, de deserdados, de pequenos crápulas) é, no entanto, capaz de gestos generosos, com um peculiar código de honra, quando recusa, já na fronteira, receber de André, o jovem revolucionário, pagamento pelos serviços prestados.
Pedagogia da acção e da luta
Os contos que constituem o volume «Sala 3» são, tal como «Até Amanhã, Camaradas», narrativas da pré-revolução, como refere Manuel Gusmão. Pertencem a esse património fecundo de livros morais, que não moralistas, de afirmação de vontades, de uma identidade própria e colectiva, de um sentido para a acção que, antes de ser ideológico, é acervo da moral revolucionária e da justiça, edifício único e exemplar do modo dos comunistas estarem e entenderem o mundo. Nestes textos Manuel Tiago traça o quadro negro do Portugal fascista e das condições quase sub-humanas em que o povo sobrevivia e lutava, a dureza da vida clandestina, as prisões da PIDE, as sevícias, as fraquezas e a grandeza quase épica de grande parte dos quadros e militantes do Partido.
O conto Sala 3, que dá título ao volume, narra-nos a história de vários militantes comunistas presos no Aljube (o autor nunca refere claramente o nome da cadeia, embora nos forneça pistas, como os pombos que vêm do Rossio, ou das Ruínas do Convento do Carmo) e a acção decorre nos primeiros anos da II Guerra Mundial. A fuga do Aljube (aqui, a grande capacidade descritiva de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal é exemplar na forma realista e visual, nessa lapidar perícia, a um tempo cativante e testemunhal que imprime ao discurso narrativo) é-nos contada com minúcia, nos mais ínfimos pormenores, desde a preparação da fuga, passando pelas denúncias e traições dos infiltrados (e esta forma dialéctica é uma constante em toda a obra de Manuel Tiago, dado que o autor não se limita a um só ângulo, mas abrange, de forma crítica, as múltiplas realidades que formam o corpo colectivo e as agruras da resistência), a luta travada dentro do cativeiro contra as condições de sujeição extrema a que os presos estavam submetidos, até aos truques que os prodígios da imaginação congeminavam para a passagem e recebimento das mensagens. «Sala 3» é, na sua crueza discursiva, no seu realismo depurado, apelando à razão, ao entendimento daqueles dias de brasa, mais do que à emotividade ou à adesão rendida do leitor, uma forma talentosa de estabelecer os indeléveis fios que despertam a consciência e mobilizam vontades, criando no receptor um fortíssimo sentido de revolta e impotente indignação – sentimentos que ainda hoje nos assaltam ao lermos este conto que é, em termos literários e de análise humana, verdadeiramente exemplar.
Há nestes textos um profundo sentido do humano mas, conjuntamente, um sentido moral que radica no exemplo que os comunistas devem representar para os seus concidadãos: o sentido da lealdade, da fraternidade, da justiça, da igualdade e do sacrifício: componentes discursivas comuns aos textos do melhor do nosso neo-realismo dos anos 1940. Temos, assim, uma visão quase romântica da função mais ampla da Literatura: a de que, a partir de narrativas de esconjuro e exemplo, ela pudesse participar, de forma racional e crítica, na transformação do corpo social, a partir dos elementos, de uma visão dialéctica e marxista da realidade que essa literatura expressa.
Essa pedagogia da acção e da luta, necessárias para que tudo mude e o mundo se transforme num lugar habitável, está ainda presente no conto «Caminho Invulgar», no qual o autor descreve, com exímia simplicidade de processos, a complexa teia de solidariedades, afectos e renúncias que faziam o quotidiano da vida clandestina de centenas de homens e mulheres deste país (descrição que, de forma mais perdurável, desenvolvida e abrangente, encontramos em «Até Amanhã, Camaradas») as quais conseguiram manter vivo, ao longo de décadas de resistência, o fulgor da esperança e a determinação da luta. Mesmo no cerco e no silêncio vigiados vividos pelos protagonistas desses tempos de estupor, existiam, para além da coragem física e da consciência cívica, pontes ténues que firmavam laços fundos com a vida. «Caminho Invulgar» é uma história que parte da abjecção mais extrema – um pai que denuncia o próprio filho e que os algozes da PIDE cruelmente torturam – para nos falar da descoberta de um mundo outro feito de sacrifícios e privações, mas fraterno e aberto ao futuro, da difícil aprendizagem da vida clandestina, mas também da iniciação, do primeiro beijo, do nascimento do primeiro arrebatamento, da paixão e do amor. Manuel Tiago nunca separa a sua visão da luta e do trabalho partidário (na novela «Cinco Dias, Cinco Noites», André, o jovem revolucionário, é atraído por Zulmira, a mulher que as condições de vida levam à prostituição) dos afectos mais fecundos, dado que a acção partidária, a luta do Partido por um mundo novo, não terá sentido se estiver desligada da vida e da sua plena fruição.
O terceiro conto de «Sala 3» é um policial bem estruturado, urdido com mestria, escrito quase em linguagem cinematográfica (e a escrita de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal é muito visual, os cromatismos, os claros/escuros que a descrição desenvolve são precisos; daí os homens de cinema a terem utilizado em duas versões felizes: «Cinco dias, Cinco Noites» e nesse épico invulgar que é «Até Amanhã, Camaradas») com períodos curtos, contendo todos os condimentos comuns ao género: um cadáver que aparece num pinhal; seguindo-se-lhe a investigação policial numa aldeia na qual quase todos os seus membros serão, aparentemente, suspeitos dado que todos eles terão motivos mais do que suficientes para ter matado o Vargas. Técnica que encontramos, por exemplo, nos romances de Agatha Christie. Mas Manuel Tiago não nos conta a estória pela estória, enredando-nos nas complexidades da trama do conto policial: são outros, quiçá mais abrangentes, os seus objectivos. Traça, ao longo da narrativa, o retrato da difícil vida dos pequenos proprietários rurais face à usura e à ganância dos latifundiários (o Vargas, ao caso). Uma vez mais o autor, utilizando com desenvoltura os mecanismos de um género literário estimável, e popular, fala-nos da opressão e da exploração capitalistas no tempo do fascismo.
«Os Corrécios», texto publicado quando Álvaro Cunhal já contava 89 anos, é, segundo a lúcida análise de Urbano Tavares Rodrigues, «um conto fabuloso, que entronca no filão das melhores histórias da vida militar, em que avultam “O Grão Capitães”, de Jorge de Sena, “Aos Costumes Disse Nada”, de David Mourão-Ferreira, os contos pícaros de Vitorino Nemésio (“Quatro Prisões Debaixo de Armas”), “Anquilose”, de Marmelo e Silva, e os de Manuel da Fonseca e de José Cardoso Pires, este em “Carta a Garcia”, maravilha de graça e arte de contar, e em muitas páginas de “O Hóspede de Job” que caricaturaram os dias de tropa em Vendas Novas».1
Para além do conto que dá título ao volume, e que trata também da repressão durante o consulado fascista – desta feita exercendo-se no seio da instituição militar, contra os jovens mancebos forçados a cumprirem o serviço obrigatório –, há um conto que me parece paradigmático da forma como Manuel Tiago aborda, entende e utiliza a criação literária: «Histórias Paralelas». Neste conto o autor debruça-se sobre o quotidiano de uma comissão concelhia do Partido; as reuniões dos seus membros; as tarefas a desenvolver; as acções de massas; e, claro, as clivagens que começam a estabelecer-se entre os que entendem que a luta deve estar ligada aos problemas concretos das populações, e os que defendem que o Partido deveria pactuar com os poderes estabelecidos (no caso vertente, o presidente da Câmara) e não afrontar, de modo tão determinante, os poderosos locais. Para além do território próprio da literatura, este texto de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal inscreve-se no universo mais vasto, pelo seu didactismo e passagem de testemunho, da intervenção política e ideológica. Neste texto (que aborda o período imediatamente posterior à Revolução de Abril, como, de resto acontece no conto «De Mãos Dadas») os padrões comportamentais dos comunistas, como fundadores de um humanismo de tipo novo, de uma atitude coerente, racional, dialéctica, interventora e crítica sobre os mecanismos da história, estão claramente assinalados e definidos, mesmo quando neles transparece a análise política em sua absoluta crueza, que desce ao cerne das questões centrais que ainda hoje – diria, sobretudo hoje – devem acometer o debate ideológico da esquerda.
Plenitude da vida e do vivido
É esta capacidade de tornar visível e claro, de dar a conhecer e a compreender o que poderá parecer, ao leitor comum e sem ligação efectiva e afectiva ao Partido, complexo e obscuro, essa pedagogia da intervenção, da resistência e da luta, que torna a escrita de Cunhal singular como objecto maior da nossa arte literária e do seu posicionamento enquanto artista, homem de cultura e dirigente político. Não descurando nunca os elementos fulcrais da criação literária, da riquíssima matéria humana que essa ficção transporta, até à paixão pelas palavras e à busca do seu exacto sentido, mas impondo à narrativa, de forma modelar, uma outra função (que o romantismo, nos seus primórdios, introduziu no território romanesco) qual seja a de poder, enquanto obra de arte, intervir sobre o pensamento humano e, a partir deste, sobre o real que o cerca. A Literatura como forma determinante de servir um projecto, uma ideia, uma forma superior de ser, de moral colectiva – modo crítico de estar e entender o mundo.
Os discursos narrativos de «Sala 3», «Até Amanhã, Camaradas», «A Casa de Eulália», «Estrela de Seis Pontas», «Os Corrécios» e «Cinco Dias, Cinco Noites» (para nos limitarmos aos títulos mais significativos da ficção de Manuel Tiago), balançam entre o passado (a resistência, a fuga, a repressão, a vida numa prisão de delito comum – «Estrela de Seis Pontas», no qual o autor exibe um estilo fortemente realista para descrever os crimes de homens, dessas margens, vítimas também da repressão e da desumanidade do sistema capitalista –, as sevícias da PIDE, a vida na clandestinidade, a heroicidade dos republicanos durante a Guerra Civil, em Espanha, («A Casa de Eulália»), na qual os comunistas portugueses também participaram tentando impedir o avanço, na península, da besta nazi – no assalto ao Quartel da Montaña e a Carabanchel, em Madrid, no Guadarrama, em Somossierra, e durante o cerco e os bombardeamentos dos nazi-fascistas italo/alemães) – as questões da organização do Partido, face às novas circunstâncias, no pós-25 de Abril, e a luta ideológica.
Manuel Tiago sabe que a memória é sempre um instrumento central da narração, como afirmou Oscar Tacca, mas sabe igualmente que a memória serve desígnios de acção e não de reacção, ou seja, não utiliza a memória em sentido nostálgico ou saudosista, mas enquanto elemento, bagagem para a transmissão da experiência do vivido, para que possamos, nós, seus atentos leitores, acautelar e descodificar as derivas do presente e prevenir o futuro.
Assim, os livros de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal narram os percursos difíceis, sinuosos, heróicos, altruístas e abnegados, também de pequenas traições, que espelham as angústias, os medos, os sobressaltos de um punhado de homens e mulheres que, num tempo de trevas e de absurdo, souberam resistir. Uma escrita onde as palavras se erguem justas e certeiras para testemunhar combates, avanços e recuos de uma epopeia nossa e colectiva, inscrita na coragem, nos silêncios mordidos, na clausura – mas atrelada à esperança, à certeza de que, da luta, através dela, dias melhores virão.
Textos construídos com extremo rigor formal, com as palavras enxutas, entendíveis e lúcidas, palavras a tecer os contornos do porvir, da dignidade, a descerem aos alçapões das almas dissolutas, dos marginais e dos corrécios, às traições rasteiras, mas igualmente a dizerem a festa, o riso, o amor, o companheirismo, a ternura, as fugas e as lágrimas do reencontro: a plenitude da vida e do vivido. A contribuir, enquanto objecto ficcional, para a libertação de homens e mulheres de um país que, 39 anos volvidos sobre essa madrugada que sonhámos, volta a sentir pousar-lhe sobre os seus ombros a pata bestial da opressão, do medo, da ignomínia e da fome.
Uma escrita atenta ao seu tempo, ao nosso tempo, despojada e sóbria, a urdir-se com os linimentos fecundos da vida e da arte, com a arte, de sobre ela, mesmo vivendo os seus atropelos e angústias, resistir.
Um homem, um político, um artista raro, sumamente humano, uma personalidade forte, multifacetada que foi Álvaro Cunhal, homem de todos os combates, forjado na luta e no amor pelo Povo, preservando, como escreveu UTR, «no mais fundo de si um secreto jardim cheio de amor e de sorrisos, que em certas circunstâncias se manifestava sobretudo no seu modo de olhar as crianças»2. Ou seja, digo eu, no seu modo de nos olhar e de olhar o futuro. Obrigado Manuel Tiago; obrigado Álvaro Cunhal.
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1 UTR, A Obra Literária de Álvaro Cunhal/Manuel Tiago, pág. 66, Lisboa 2005, Ed. Caminho
2 ibidem, pág. 85
* Intervenção feita no Fórum Cultural JoséManuel Figueiredo no âmbito das comemorações do centenário de Álvaro Cunhal promovidas pela Câmara Municipal da Moita